09/11/2003

De guerra 

Tive a confirmação de tudo. Clarice ganha a vida deitando-se com os homens que lhe sorriem com a boca e com o bolso. O fato é que se deitou comigo sem que lhe desse nenhuma moeda. É verdade que a ela ofereci sorriso que já pensava adormecido na estrada. Hermínio que me bateu: "Se liga que essa mulher vai te dar uma volta." O que Hermínio não sabia é que já estava no meio da curva, não pelo motivo que julgava.
Hermínio zomba da situação, zomba de mim. Acho que porque resisti ao álcool essa semana. Ele tem a firme convicção de que Clarice não é mulher para mim. Que sabe ele sobre minha vida, que santo julga-me ser? Disse-me que a mulher que não saía da minha casa chamava-se Letícia. Mais um motivo para me deixar desarmado. Ela não usou comigo o seu nome de guerra. Talvez porque já me tenha considerado um derrotado.


Mágoas afogadas:

03/11/2003

Vácuo 

Estou limpo. Estive uma semana convivendo com os homens de branco. Estou no osso. Muito soro, muito sermão. Uma semana sem nenhum álcool. Espessamento do fígado. O médico diz que apesar de tudo ainda tem retorno para a minha esponja vermelha. Há uma semana, depois soube pela enfermeira, que Clarice pergunta por mim, a estranha que também há uma semana acordou ao meu lado. Tenho medo. Achei que Clarice era delírio meu, uma concretização de Félice. Sinto sede de álcool, por isso choro; choro também porque não quero mais sofrer por mulher nenhuma.
Espessamento de fígado, constrição de diástole e sístole.


Mágoas afogadas:

26/10/2003

Gargalhada e cuba libre 

A gargalhada não saía da minha cabeça. Saía ontem lá pelas 3h do Hermínio. A cabeça já estava feita. Muitas doses de rum com coca-cola. Nunca quis libertar Cuba, nem tenho tanta simpatia pela causa de Fidel. Ela garalhou ao me ver fazer careta quando bebia. Paguei-lhe uma água tônica.
Acordei, e ela estava lá, ao meu lado.
Dor de cabeça.


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23/10/2003

Rara avis, cara avis 

Mercedes apareceu hoje acompanhada de um garoto de seus doze anos. A vassoura esquadrinhava os quatro cantos da casa, e o menino, quieto, lendo um livro carcomido no sofá também carcomido. Estava concentrado na leitura. A máquina de lavar agora enlouquecia os vizinhos e a mim, mas não demovia o menino. As páginas eram viradas com uma elegância que, em dissimulação, abandonei Félice para acompanhar aquele deleite juvenil. A água sólida do degelo soava-me icebergs no espaço diminuto.
- Seo Uóque, tá conhecendo esse menino não?
Como não lhe respondesse no tempo esperado, disse-me sorrindo:
- É o Faustino, seu afilhado. - Faustino interrompeu o melhor da sua leitura e me concedeu um sorriso.
Constrangimento.


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20/10/2003

Retratos 


É assim que imagino Félice


O final de semana me serviu para viajar em pequenas amarguras. Resolvi olhar para o que um dia fui. No álbum, uma sombra de um homem que sorri, um homem que acredita, um homem que percebe o futuro logo ali na esquina. Na época dessa foto não gostava de beber. Quem se alimenta de esperança não precisa se embriagar.
"Félice abre a porta lentamente antes de impregnar o ambiente com o seu olhar de sempre. Caminha em direção ao criado-mudo, onde procura pela leitura interrompida no meio da madrugada. Bebe seu leite com uma decisão comprometedora. Instala-se em seu locus vivendi para ter como continuar caminhando." (Final do primeiro capítulo de Papillotes vides)
Não fosse pelo lamentável do leite ingerido, senti-me como Félice, ao encontrar-me com o homem da foto.


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17/10/2003

Papillotes vides 

Caminhava pelo bar freneticamente. Estava com o cenho rijo, sem nenhum sorriso. Hermínio nunca foi modelo de simpatia, mas ontem não fazia nenhuma questão de esconder o acre do que vivia. Eu comecei, então, ali mesmo a ler o livro meio descompromissadamente. Eu o pegara na editora para traduzir, "Papillotes vides". O título já seria uma pedreira. Sorri quando pensei na possibilidade de "Papelotes vazios", em português do Brasil ganharia o sendido de alguma coisa ligada ao tráfico. O livro me parecia uma metáfora do amor pelo que pude ler na sinopse, e "papillote" é o papel que embrulha o bombom ou pequenos artefatos delicados. Papelucho é o que chega mais próximo, mas não me agrada. Penso nisso depois.
- Aqui está o seu feijão amigo! - disse Hermínio quase bufando. Preferia que tivesse dito: "Aqui está o seu feijão, amigo!"
Acabei de tomar a caipirinha com aquele feijão que desceu muito bem. Estava com um pedaço de pão dormido e meio copo de laranjada que engoli no final da manhã.


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16/10/2003

Ouço os ruídos de sempre 

Chego cedo hoje. O Hermínio fechou o bar antes do previsto. Não quis procurar outro lugar.
Da minha janela, posso ouvir os ruídos noturnos de sempre. Um pássaro mal-agourento que eu ainda não descobri o nome, o guarda fazendo a sua ronda. Faltam onze minutos para uma hora. Falta pouco para ouvir o ruído que sai do apito do guarda pendular. Ele talvez já saiba da minha existência, talvez não.
Ligo o rádio. Toca uma antiga canção sertaneja de Alvarenga e Ranchinho: "O drama de Angélica." Ouvia isso na infância: "Cá jaz Angélica / moça hiperbólica / Beleza helênica / morreu de cólica." Este som me fez sorrir.


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